Guia completo sobre remição de pena
Remição de pena, execução penal, cálculo de pena, progressão de regime e detração penal são temas centrais na prática diária do advogado criminalista que atua — ou pretende atuar — na Vara de Execuções Penais.
Dominar o cálculo da remição de pena não é apenas uma questão teórica. Trata-se de uma habilidade prática indispensável para:
antecipar benefícios,
corrigir ilegalidades na execução penal,
e garantir que o cliente recupere sua liberdade no menor tempo possível dentro da legalidade.
Na execução penal, tempo significa liberdade.
E poucos institutos impactam tanto esse tempo quanto a remição da pena.
Neste artigo você encontrará:
fundamento legal completo da remição;
exemplos práticos reais de cálculo;
erros frequentes cometidos pela contadoria judicial;
estratégias de atuação defensiva;
e modelos de raciocínio para peticionar na Vara de Execuções Penais.
Se você é nosso aluno do Curso Decolando na Execução Penal, já conhece a nossa famosa calculadora penal. Assista o vídeo abaixo antes de seguir a leitura:
O que é remição de pena? Fundamento legal indispensável
A remição de pena é um instituto previsto na Lei nº 7.210/1984 (Lei de Execução Penal) que permite ao condenado abreviar o tempo de cumprimento da pena por meio do trabalho ou do estudo.
Dispõe o art. 126 da Lei de Execução Penal:
Art. 126. O condenado que cumpre a pena em regime fechado ou semiaberto poderá remir, por trabalho ou por estudo, parte do tempo de execução da pena.
§ 1º A contagem de tempo referida no caput será feita à razão de:
I – 1 (um) dia de pena a cada 12 (doze) horas de frequência escolar – atividade de ensino fundamental, médio, inclusive profissionalizante, ou superior, ou ainda de requalificação profissional – divididas, no mínimo, em 3 (três) dias;
II – 1 (um) dia de pena a cada 3 (três) dias de trabalho.
§ 2º As atividades de estudo poderão ser desenvolvidas presencialmente ou por ensino a distância.
§ 3º Para fins de cumulação, as horas de estudo e trabalho devem ser compatibilizadas.
§ 4º O preso impossibilitado por acidente de continuar trabalhando ou estudando continuará a se beneficiar da remição.
§ 5º O tempo remido pelo estudo será acrescido de 1/3 em caso de conclusão de ensino fundamental, médio ou superior durante o cumprimento da pena.
§ 6º O condenado em regime aberto ou em livramento condicional também poderá remir pena pelo estudo.
§ 7º O instituto aplica-se inclusive às hipóteses de prisão cautelar.
§ 8º A remição será declarada pelo juiz da execução, ouvidos Ministério Público e defesa.
Importante destacar: a remição é considerada direito subjetivo do condenado, desde que preenchidos os requisitos legais.
Remição de pena x detração penal: diferença prática que impacta o cálculo
Um erro muito comum entre advogados iniciantes na execução penal é confundir remição de pena com detração penal.
A detração penal encontra previsão no art. 42 do Código Penal, que dispõe:
Art. 42 – Código Penal
Computam-se, na pena privativa de liberdade e na medida de segurança, o tempo de prisão provisória, no Brasil ou no estrangeiro, o tempo de prisão administrativa e o de internação em qualquer dos estabelecimentos referidos no artigo anterior.
Diferença prática
Detração penal
Refere-se ao tempo de prisão antes da condenação definitiva, como:
prisão preventiva
prisão temporária
prisão em flagrante
Remição de pena
Refere-se ao tempo abatido da pena em razão de estudo ou trabalho durante a execução da pena.
Na prática da execução penal, ambos os institutos devem ser lançados corretamente no cálculo, respeitando sempre a forma mais benéfica ao apenado.
Como calcular a remição de pena na prática
A regra legal é simples:
Trabalho
1 dia de pena a cada 3 dias trabalhados
Estudo
1 dia de pena a cada 12 horas de estudo
No entanto, na prática forense o cálculo exige atenção porque envolve:
conversão da pena em dias;
incidência de frações para progressão;
data-base;
detração penal;
remição acumulada.
Exemplo prático real de cálculo de remição por trabalho
Imagine a seguinte situação concreta na execução penal.
Caso hipotético inspirado em execuções reais
Condenado: João
Pena total: 12 anos de reclusão
Regime inicial: fechado
Crime comum
Conversão da pena
12 anos = 4.380 dias
Progressão para o semiaberto: 1/6 da pena
4.380 ÷ 6 = 730 dias
João trabalhou durante 300 dias no presídio.
Cálculo da remição
Regra:
1 dia de pena a cada 3 dias trabalhados
300 ÷ 3 = 100 dias remidos
Novo cálculo
730 – 100 = 630 dias
Ou seja:
João poderá progredir aproximadamente 100 dias antes do que ocorreria sem remição.
Na prática, isso representa mais de três meses de antecipação da progressão de regime.
Exemplo real de remição por estudo
Agora imagine outro cenário. Preso matriculado em curso de ensino médio dentro da unidade prisional.
Carga horária total certificada: 360 horas de estudo
Cálculo
360 ÷ 12 = 30 dias de remição
Se durante a execução o preso concluir o ensino médio, aplica-se o bônus previsto no §5º do art. 126 da LEP.
30 dias + 1/3 = 40 dias de remição total
Esse acréscimo é extremamente relevante e muitas vezes não é aplicado automaticamente pela administração penitenciária, exigindo atuação do advogado.
Um erro comum da prática: a ordem do cálculo da remição
Existe um detalhe matemático que gera enorme impacto na execução penal.
A ordem do cálculo.
Há duas formas utilizadas na prática.
Uma mais prejudicial ao apenado e outra mais benéfica.
Forma prejudicial de cálculo (ainda usada por algumas contadorias)
Passo 1
Converter a pena total em dias
Passo 2
Subtrair detração e remição
Passo 3
Aplicar a fração da progressão
Exemplo
Pena: 5.550 dias
Remição: 100 dias
5.550 – 100 = 5.450
5.450 × 1/6 = 908 dias
Forma mais benéfica ao apenado
Passo 1
Converter a pena total em dias
Passo 2
Aplicar a fração da progressão
Passo 3
Subtrair remição e detração
Exemplo
5.550 × 1/6 = 925
925 – 100 = 825 dias
Perceba:
A diferença é de 83 dias de liberdade.
Essa metodologia é a que melhor se harmoniza com os princípios da individualização da pena e do favor rei.
Remição por leitura: possibilidade pouco explorada pela defesa
Além do trabalho e do estudo, muitas unidades prisionais adotam projetos de remição pela leitura, autorizados pelo Conselho Nacional de Justiça.
Em regra:
1 obra literária lida
elaboração de resenha
avaliação pedagógica
Resultado:
até 4 dias de remição por obra
Limite comum:
12 livros por ano = até 48 dias de remição anual
Muitos presos participam desses projetos, mas a remição não é automaticamente comunicada ao processo de execução penal.
O advogado deve requerer a juntada dos certificados.
Estratégias práticas de atuação do advogado criminalista
A remição de pena pode se tornar uma estratégia permanente de atuação defensiva.
Algumas práticas recomendadas:
1 – Acompanhar mensalmente o prontuário do preso
Verifique:
fichas de trabalho
frequência escolar
certificados educacionais
2 – Peticionar sempre que houver novos dias remidos
Não espere acumular.
Peticionar periodicamente evita:
perda documental
atrasos na progressão
erros da contadoria.
3 – Conferir os cálculos da Vara de Execuções Penais
Erros comuns:
não contabilização de estudo EAD
ausência do bônus de 1/3 por conclusão de curso
erro na ordem do cálculo da progressão
ausência de remição por leitura
4 – Utilizar a remição para antecipar benefícios
A remição impacta diretamente:
progressão de regime
livramento condicional
comutação
indulto
término da pena
Um simples certificado de estudo pode antecipar meses de liberdade.
Estratégia de peticionamento na execução penal
Um pedido bem estruturado costuma conter:
1 – indicação do fundamento legal
art. 126 da Lei de Execução Penal
2 – comprovação documental
declaração da unidade prisional
certificado de estudo
ficha laboral
3 – cálculo detalhado da remição
Demonstrando:
horas de estudo ou dias trabalhados
conversão legal
impacto na progressão.
4 – pedido expresso
Requerer:
homologação da remição
retificação do cálculo de pena
reanálise de benefícios.
Remição de pena na prisão cautelar: um direito pouco conhecido
O §7º do art. 126 da LEP estabelece:
A remição aplica-se às hipóteses de prisão cautelar.
Ou seja:
Mesmo presos preventivos podem remir pena caso realizem:
trabalho
estudo
Se posteriormente houver condenação, esse tempo deve ser computado na execução penal.
Muitas execuções ignoram esse direito.
Conclusão: quem domina a remição domina o tempo da execução penal
Dominar a remição de pena é uma habilidade essencial para quem deseja atuar com excelência na execução penal.
Um advogado criminalista que domina esse instituto consegue:
antecipar progressões de regime
reduzir o tempo de encarceramento
identificar ilegalidades nos cálculos
garantir a correta aplicação da Lei de Execução Penal
Na execução penal, o tempo é o verdadeiro campo de disputa jurídica.
E o advogado que sabe trabalhar com remição entrega resultados concretos ao cliente: dias, meses e até anos de liberdade antecipada.
⚠️ Um erro de cálculo pode custar meses de liberdade ao seu cliente.
No Curso Decolando na Execução Penal do IDPB, você aprende na prática:
cálculos completos de execução penal
estratégias de atuação na VEP
modelos de petições
uso da calculadora profissional de execução penal.




Respostas de 2
A remissão de pena pode ser acumulada, ou seja, soma-se o dia trabalhado e as horas de estudo no mesmo dia ou deve ser separado, ou seja, trabalha ou estuda?
Drª Profª CRISTIANE DUPRET
Poderia compartilhar um modelo de cálculos em PDF?
Entendo, que com o modelo em PDF posso fazer os cálculos físicos ao invés de digital sem necessidade de utilizar a calculadora eletrônica .
Desde já agradeço a V. Exª
Helio Alves Felipe
Aluno